segunda-feira, 24 de novembro de 2008

MÃES MÁS

Um dia quando meus filhos forem crescidos o suficiente
para entender a lógica que motiva os pais e as mães, eu hei de dizer-
lhes:
- Eu os amei o suficiente para perguntar: aonde vão, com
quem vão e a que horas regressarão;
- Eu os amei o suficiente para não ficar em silêncio e fazer
com que vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa
companhia;
- Eu os amei o suficiente para os fazer pagar pelos caramelos
que tiraram da mercearia e os fazer dizer ao dono: “nós roubamos isto
ontem e queríamos pagar”.
- Eu os amei o suficiente para ficar em pé junto a vocês por
2 horas enquanto limpavam o seu quarto, tarefa que eu teria realizado
em 15 minutos;
- Eu os amei o suficiente para os deixar ver além do amor
que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos
meus olhos;
- Eu os amei o suficiente para os deixar assumir a
responsabilidade por suas ações, mesmo quando as penalidades eram
duras que me partiam o coração;
- Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para dizer-lhes
não, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso.
Essas eram as mais difíceis batalhas de todas.
Estou contente, venci, porque no final vocês venceram
também!
E qualquer dia, quando meus netos forem crescidos o
suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, meus
filhos vão lhes dizer, quando eles perguntarem se a sua mãe era má:
Sim. Nossa mãe era má. Era a mãe mais má do mundo. As outras
crianças comiam doces pela manhã enquanto nós tínhamos de comer
cereais, ovos e torradas.
As outras crianças bebiam refrigerantes e comiam batatas
fritas e sorvete no almoço enquanto nós tínhamos de comer arroz,
feijão, carne, legumes e frutas.
E ela obrigava-nos a juntar à mesa, bem diferente das outras
mães, que deixavam os filhos comer vendo televisão.
Ela insistia em saber onde nós estávamos a toda hora. Era
quase uma prisão.
Mamãe tinha que saber quem eram os nossos amigos e o que
nós fazíamos com eles.
Insistia que lhe avisássemos ao sair, mesmo que fôssemos
demorar só uma hora ou menos.
Nós tínhamos vergonha de admitir, mas ela violou as leis do
trabalho infantil: Nós tínhamos de lavar louça, fazer as camas, lavar a
roupa, aprender a cozinhar, aspirar o chão, esvaziar o lixo e todo o
tipo de trabalhos cruéis.
Eu acho que ela nem dormia à noite, pensando em coisas
para nos mandar fazer. Ela insistia sempre conosco para lhe dizermos
a verdade. E quando éramos adolescentes, ela até conseguia ler os
nossos pensamentos. A nossa vida era mesmo chata.
Ela não deixava nossos amigos tocar a buzina para que nós
saíssemos. Tinha de subir e bater à porta para ela os conhecer.
Enquanto todos podiam sair à noite com 12, 13 anos nós
tivemos que esperar pelos 16. Por causa das nossas mães, perdemos
imensas experiências da adolescência. Nenhum de nós esteve
envolvido com drogas, roubos, atos de vandalismo, violação de
propriedade, nem fomos presos por nenhum crime.
Foi tudo por causa dela.
Agora que já saímos de casa, somos adultos honestos e
educados, estamos a fazer o nosso melhor para sermos “pais maus”,
tal como a nossa mãe foi. Acho que esse é um dos males do mundo de
hoje: Não há suficientes mães más!