sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Fé Sem Arrependimento


Jim Elliff

Alguns de nós, que vivemos nos Estados Unidos, temos em nossas mentes a figura de um pregador expedicionário dos dias do avivamento no Kentucky, por meados de 1800. O pregador do sertão estava próximo de um tronco de árvore, movendo sua Bíblia e gritando “ARREPENDEI-VOS!”, enquanto o suor escorria em seu rosto. Esta figura, muito interessante, não está muito distante da de João Batista, aquele tempestuoso pregador rural, cuja voz também repercutiu: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2). Jesus falou essas mesmas palavras, assim como o fizeram todos os apóstolos do Novo Testamento. Por que a ênfase? Porque eles sabiam: se a fé não viesse através do arrependimento, não teria valor algum.
            Se uma pessoa tiver de ser salva (a palavra significa “resgatar”), não é necessário compreender que existe algo do que precisa ser liberta? Cristo não veio ao mundo para abençoar as pessoas boas, mas resgatar-nos da maldade infernal de nossas almas e da condenação eterna! Qualquer outro entendimento torna insignificante o imenso valor da redenção.
Sua fé evolveu arrependimento? Jamais diria que alguém precisa ser capaz de definir o arrependimento ou mesmo usar a palavra na conversão. Entretanto, ninguém é salvo sem arrepender-se. Paulo disse que Deus “notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam” (At 17. 30). Seria necessário um teólogo habilidoso para excluir alguém desta exigência!
Compare sua fé com a das pessoas que celebravam a Páscoa na época de Jesus: “Estando ele em Jerusalém, durante a festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome. Mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia todos. E não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o que era a natureza humana.” (Jo 2. 23-25).
O alarmante significado desta passagem é que as palavras “creram”, por parte de muitos, e “confiava”, por parte de Cristo, são as mesmas no grego, a língua original do Novo Testamento. Podemos ler a frase desta maneira: “Eles acreditavam ou confiavam em Cristo, mas Cristo não se confiava a eles!” Por quê? Por que possuíam esta fé sem valor? Porque eram “crentes” não-arrependidos. Eles gostariam muito de ter Cristo acrescentando a suas vidas, um benefício necessário e maravilhoso. Quem não apreciaria tais milagres? Muitos não estavam vindo a Ele? Portanto, acreditavam... mas Cristo conhecia seus corações. Estavam cheios de si mesmos e de seu orgulho, luxúria, rancor, etc.
Você questiona: os cristãos verdadeiros não cometem pecados como estes, mesmo depois de crerem em Cristo? Sim, mas há uma diferença em como um verdadeiro crente vem a Cristo. A pessoa verdadeiramente arrependida vem a Cristo porque é um pecador desesperado por ajuda. Mas o falso crente chega-se a Cristo basicamente sem o desejo por completa mudança em sua vida de pecado. Deseja apenas apropriar-se de uma coisa boa ou ser liberto das consequências de seu pecado. O cristão verdadeiro encontrará ajuda como resultado de sua fé em Cristo e evidenciará em medida crescente o fruto de seu arrependimento; o “crente” iludido continuará vivendo como sempre viveu, enquanto se cobre com as externalidades cristãs.
O que é arrependimento? Encontraremos a melhor resposta no significado da própria palavra: “mudar de ideia”. É uma mudança de atitude, na mente ou no coração, que está tão intimamente associada à fé que poderíamos chamar de “prelúdio” da fé genuína.
“Entendo”, você responde, “arrependimento é converter-se do pecado”. Sim, de certa forma, conforme veremos; mas não significa isto se você tenciona dizer que, antes de ser revestida de Cristo, uma pessoa tem a capacidade de fazer a si mesma comportar-se de maneira aceitável a Deus. O arrependimento jamais poderia ser uma “obra” exigida para a salvação, pois esta não vem “de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2. 9). O arrependimento acontece no coração. Somente Deus pode realizar as mudanças que O agradam. As mudanças se manifestarão depois da aplicação da fé. De novo, eu afirmo: “O arrependimento é uma questão do coração”.
Você pergunta: “O arrependimento não significa tristeza pelos pecados?” Não, não somente tristeza. Neste exato momento, existem muitas pessoas lamentando pelos seus pecados, mesmo nas igrejas; todavia, elas não estão mais perto da conversão do que Esaú, ao chorar por causa da bênção perdida. Porém, a existência do tipo correto de tristeza fornece uma sugestão da legitimidade do arrependimento. Considere o que Paulo disse sobre esta questão: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte.” (2 Coríntios 7.10) Leia a passagem novamente. A tristeza segundo Deus... salvação; tristeza do mundo... morte. Qual a diferença entre as duas tristezas? Cinco palavras trazem luz ao entendimento – “que a ninguém traz pesar”. Deixe-me ilustrar. O jovem rico que perguntou a Jesus: “Que farei para herdar a vida eterna?” (Mc 10.17-22) não teria achado dificuldade em conseguir que o ajudássemos a converter-se ao cristianismo. Ele parecia tão sincero e disposto. Com que frequência você encontra uma pessoa como esta? Ele testemunharia em todos os meios de comunicação de nosso país, antes que o mês acabasse. Sem muito esforço, nós o teríamos escolhido para um dos conselhos ou comissões da igreja. Afinal de contas, ele sabia muito a respeito de como lidar com o dinheiro! Mas Jesus tinha opinião totalmente diferente. Por isso, mandou embora o jovem rico. Como esta excelente oportunidade “passou por Jesus”? Jesus sabia o que estava no coração daquele homem. Sem dúvida, este respeitável cidadão queria vida eterna; sim, mas apenas até certo ponto. O que Jesus sabia que não podíamos ver? Ele sabia que o jovem rico possuía um ídolo em sua vida, um ídolo que ele desejava ter mais do que a vida eterna, mais do que a companhia da Divindade, mais do que o parentesco com todos os santos da história, até mais do que as riquezas do próprio Cristo. Assim como em tudo que Cristo disse e fez, Ele desejou causar impacto neste homem, de uma maneira que ecoasse até à nossa geração. Por isso, intencionalmente ele argumentou sobre o ídolo do coração daquele jovem: “Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me”. Este homem sincero, que teríamos imediatamente encorajado, não poderia viver com tamanha severidade. Ele desejava ter Cristo, mas não ao custo do que a vida significava para ele. Ele simplesmente não poderia vir a Cristo sem o “pesar” de perder tudo que amava. Deste modo, sua tristeza, esbarrando em uma mudança subsequente, não revelada nas Escrituras, levou-o à morte. Então, perceba que a essência do teste revelador desta “mudança de pensamento” é o assunto central do pesar.
E se a história houvesse terminado de outra maneira? O que o jovem nos falaria sobre suas motivações interiores? Acredito que ele teria dito algo assim: “Desistir de minhas posses? A princípio, fiquei chocado e furioso, mas sabia que Ele estava certo. Desistir delas? Claro que sim. Elas haviam se tornado os maiores ídolos de minha vida; eu lhes havia entregue a minha alma. Não é doloroso ser liberto. Desisti de tudo e O segui!”
Sem pecado, ninguém verá a Cristo. Você achega-se a Ele exatamente porque tem pecado. Mas não pode achegar-se a Cristo com a atitude de agarrar-se aos seus pecados. Assim, como o jovem rico, você não pode dizer (ou mesmo crer ocultamente): “Irei a Cristo, mas não abandonarei o que é importante para mim... meus hábitos, minha vida particular, minha posição na sociedade, meus bens, minha independência, o controle de minha própria vida”. Pelo contrário, você tem de vir com seus pecados e por causa de seu profundo desejo de abandoná-los, a fim de encontrar livramento. Venha a Cristo acreditando que qualquer afastamento de Deus é pecado. Não será algo surpreendente saber que o Espírito exerce firme pressão sobre o seu principal ídolo, o primeiro amor de seu coração, pois tudo o que pertence a você se tornará dEle. Esta é a sua “mudança de pensamento”, no íntimo. Cristo salvará apenas aquele que vier desta maneira, e mais ninguém. Portanto, o que você diz a respeito de si mesmo?

A Queda

“Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu.” (Gênesis 3.6).
Na Carta aos Romanos, Paulo afirma que toda a humanidade está por natureza sob a culpa e o poder do pecado, sob o reino da morte e sob a inescapável ira de Deus (Rm 1.18-19; 3.9,19; 5.17,21). Ele relaciona a origem desse estado ao pecado de um homem – Adão –, que ele descreve como nosso ancestral comum (At 17.26; Rm 5.12-14; cf. 1Co 15.22). Paulo, como apóstolo, deu sua interpretação autorizada à história registrada em Gn 3, onde encontramos a narrativa da queda, a desobediência humana original, que afastou o homem de Deus e da santidade, e lançou-o no pecado e na perdição. Os principais pontos dessa história, vista pelas lentes da interpretação de Paulo, são:
1. Deus fez do primeiro homem o representante de toda a sua posteridade, exatamente do mesmo modo como faria de Cristo o representante de todos os eleitos de Deus (Rm 5.15-19; cf. 8.29-30; 9.22-26). Em ambos os casos, o representante envolveu aqueles a quem representou nos resultados de sua ação pessoal, quer para o bem (no caso de Cristo), quer para o mal (no caso de Adão). Esse arranjo divinamente estabelecido, pelo qual Adão determinou o destino de seus descendentes, tem sido chamado de a “aliança das obras”, ainda que essa frase não ocorra nas Escrituras.
2. Deus colocou Adão num estado de felicidade e prometeu a ele e a sua posteridade confirmá-los nesse estado permanentemente se, nesse estado, Adão mostrasse fidelidade, obedecendo o mandamento de Deus, não comendo da árvore descrita como a “árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2.17). Aparentemente, a questão era se Adão aceitaria Deus determinar o que era bom e mal ou se procuraria decidir isso por si mesmo, independentemente do que Deus lhe tinha dito.
3. Adão, levado por Eva – que por sua vez foi induzida pela serpente (Satanás disfarçado, 2Co 11.3,14; Ap 12.9) – afrontou a Deus comendo do fruto proibido. Como consequência, primeiro de tudo, a disposição mental que se opõe a Deus e se engrandece a si mesmo, expressa no pecado de Adão, tornou-se parte dele e da natureza moral que ele transmitiu aos seus descendentes (Gn 6.5; Rm 3.9-20). Em segundo lugar, Adão e Eva foram dominados por um senso de profanação e culpa, que os levou a ter vergonha e medo de Deus – com justificada razão. Em terceiro lugar, eles foram amaldiçoados com expectação de sofrimento e morte e foram expulsos do Éden. Ao mesmo tempo, contudo, Deus começou a mostrar-lhes graça salvadora. Fez para eles vestimenta para cobrir sua nudez e prometeu-lhes que, um dia, a Semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Essa promessa prenunciou a Cristo.
Ainda que essa história, de certo modo, seja contada em estilo figurado, o Livro de Gênesis pede-nos que a leiamos como história. No Gênesis, Adão está ligado aos patriarcas e, através deles, por genealogia, ao resto da raça humana (caps. 5;10–11), fazendo dele uma parte da história, tanto quanto Abraão, Isaque e Jacó. Todas as principais personalidades do Livro de Gênesis, depois de Adão – exceto José – são mostradas claramente como pecadores de um modo ou de outro, e a morte de José, como a morte de quase todos os outros na história, é cuidadosamente registrada (Gn 50.22-26). A afirmação de Paulo: “em Adão, todos morreram” (1Co 15.22) só torna explícito aquilo que o Gênesis já deixa claramente implícito.
É razoável afirmar que a narrativa da queda sozinha dá uma explicação convincente para a perversão da natureza humana. Pascal disse que a doutrina do pecado original parece uma ofensa à razão, porém, uma vez aceita, dá sentido total à condição humana. Ele estava certo; e a mesma coisa poderia e deveria ser dita a respeito da própria narrativa da queda.

Fonte: Nota teológica extraída da Bíblia de Estudo de Genebra.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

sábado, 1 de janeiro de 2011