domingo, 14 de dezembro de 2008

MÃES MÁS

Um dia quando meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, eu hei de dizer-lhes:
- Eu os amei o suficiente para perguntar: aonde vão, com quem vão e a que horas regressarão;
- Eu os amei o suficiente para não ficar em silêncio e fazer com que vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia;
- Eu os amei o suficiente para os fazer pagar pelos caramelos que tiraram da mercearia e os fazer dizer ao dono: “nós roubamos isto ontem e queríamos pagar”.
- Eu os amei o suficiente para ficar em pé junto a vocês por 2 horas enquanto limpavam o seu quarto, tarefa que eu teria realizado em 15 minutos;
- Eu os amei o suficiente para os deixar ver além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos;
- Eu os amei o suficiente para os deixar assumir a responsabilidade por suas ações, mesmo quando as penalidades eram duras que me partiam o coração;
- Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para dizer-lhes não, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso.
Essas eram as mais difíceis batalhas de todas.
Estou contente, venci, porque no final vocês venceram também!
E qualquer dia, quando meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, meus filhos vão lhes dizer, quando eles perguntarem se a sua mãe era má: Sim. Nossa mãe era má. Era a mãe mais má do mundo. As outras crianças comiam doces pela manhã enquanto nós tínhamos de comer cereais, ovos e torradas.
As outras crianças bebiam refrigerantes e comiam batatas fritas e sorvete no almoço enquanto nós tínhamos de comer arroz, feijão, carne, legumes e frutas.
E ela obrigava-nos a juntar à mesa, bem diferente das outras mães, que deixavam os filhos comer vendo televisão.
Ela insistia em saber onde nós estávamos a toda hora. Era quase uma prisão.
Mamãe tinha que saber quem eram os nossos amigos e o que nós fazíamos com eles.
Insistia que lhe avisássemos ao sair, mesmo que fôssemos demorar só uma hora ou menos.
Nós tínhamos vergonha de admitir, mas ela violou as leis do trabalho infantil: Nós tínhamos de lavar louça, fazer as camas, lavar a roupa, aprender a cozinhar, aspirar o chão, esvaziar o lixo e todo o tipo de trabalhos cruéis.
Eu acho que ela nem dormia à noite, pensando em coisas para nos mandar fazer. Ela insistia sempre conosco para lhe dizermos a verdade. E quando éramos adolescentes, ela até conseguia ler os nossos pensamentos. A nossa vida era mesmo chata.
Ela não deixava nossos amigos tocar a buzina para que nós saíssemos. Tinha de subir e bater à porta para ela os conhecer.
Enquanto todos podiam sair à noite com 12, 13 anos nós tivemos que esperar pelos 16. Por causa das nossas mães, perdemos imensas experiências da adolescência. Nenhum de nós esteve envolvido com drogas, roubos, atos de vandalismo, violação de propriedade, nem fomos presos por nenhum crime.
Foi tudo por causa dela.
Agora que já saímos de casa, somos adultos honestos e educados, estamos a fazer o nosso melhor para sermos “pais maus”, tal como a nossa mãe foi. Acho que esse é um dos males do mundo de hoje: Não há suficientes mães más!