sábado, 31 de outubro de 2015

João Calvino: Pastor e Mestre

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Ef. 4:11,12)
Grande dom à igreja de Jesus Cristo Deus deu em João Calvino. Grande exemplo para pastores é esse homem incomum, preparado pela providência para servir à igreja de Deus naquele tempo. Grande inspiração para todos do povo de Deus, jovens também, é Calvino, cuja dedicação e amor paciente por seus irmãos nos move às lágrimas. Verdadeiramente, Deus deu esse homem, pastor e mestre, para o aperfeiçoamento dos santos, a obra do ministério e a edificação do corpo de Cristo.
Calvino nasceu em 1509, o quarto filho de um advogado da igreja e sua esposa, em Noyon, França, uma cidade amuralhada com aproximadamente 10.000 habitantes. Tal era os tempos no século dezesseis que a probabilidade de sobreviver à infância não era grande. Calvino já tinha dois irmãos mais velhos que tinham morrido na infância. Quando ele tinha apenas três anos, a mãe de Calvino morreu; e ele foi criado por uma madrasta com seu irmão mais velho, Charles, seu irmão mais novo, Antoine, e duas meio-irmãs.
Sua educação foi da mais fina, manipulada como foi por seu pai advogado, financiada por salários de posições da igreja que tinha obtido para Calvino, mas que não requeriam nenhum trabalho. Então, aos quatorze anos, Calvino teve a oportunidade de estudar com seus amigos, filhos de um bispo local, em Paris, aos pés de eruditos renomados mundialmente. Ele nunca retornou para ficar em Noyon, a cidade de seu nascimento.
Originalmente, seu pai destinou Calvino à teologia e ao sacerdócio. Quando seu pai viu que a riqueza era mais provável na prática do direito, dirigiu seu filho nesse caminho. Não-convertido, de acordo com sua própria confissão, Calvino não objetou, mas estudou com afinco. Foi somente mais tarde que Calvino retornou ao estudo da teologia.
A Reforma tinha poucos anos quando Calvino era um garoto. Zwínglio estava escrevendo e pregando a verdade. Erasmo tinha traduzido o Novo Testamento. Ministros cujos nomes são desconhecidos para nós, estavam pregando a fé reformada a partir das Escrituras. Por essa pregação, o Senhor estava mudando corações. Papa e bispos estavam irados com as mudanças. Nações estavam em guerra. Porque a Igreja e o Estado estavam em íntima conexão, a Igreja estava no centro. No meio desse tumulto, Deus estava preparando o jovem Calvino para ser um erudito incansável, um pregador eloquente, um teólogo brilhante, um apaixonado guerreiro pela fé e um humilde pastor.
Primeiro, Deus o converteria. “Por uma súbita conversão, Deus subjugou o meu coração”, confessou no prefácio ao seu comentário sobre os Salmos. Dali em diante, sua paixão foi sem limites pela causa de Jesus Cristo. Até a sua morte, esse grande dom de Deus nos serviu como um exemplo para os pastores de hoje.
Existem jovens lendo isso? Sejam encorajados, irmãos, pela grande alegria que este homem encontrou em sofrer pela igreja de Cristo como um pastor, e que essas lições de sua vida nos ensinem sobre o que significa ser um bom pastor. Mas, em vez de aprender de Calvino a partir de um estudo cronológico de sua vida, vejamos cinco áreas do ministério de Calvino que ilustram para nós que tipo de homem, pastor e mestre Deus o fez ser.
Disposto, no Dia do Poder de Deus
Como outros pastores na igreja de Deus, Calvino foi chamado para trabalhar onde não tinha escolhido. Calvino tinha se comprometido a uma vida quieta de estudo privado. Mas Deus o arrastou, como a Jonas, para o centro da batalha da Reforma e da vida da igreja numa cidade hostil. Empurrado para uma posição que não buscou, não queria, e de fato, da qual fugiu, ele se encontrou como pastor em Genebra, Suíça.
Em 1536, aos vinte e sete anos, quando viajando de volta da sua cidade natal, onde tinha ido resolver os assuntos da família após a morte do seu pai, a guerra o forçou a tomar um longo contorno que o levaria à bela cidade suíça de Genebra. Ali, passaria uma noite e retornaria à Estrasburgo para escrever e estudar em paz. Mas Deus tinha outros planos. Os pastores Farel e Viret, por quem Deus começou a Reforma em Genebra, procuraram-no e pressionaram-no a permanecer e ajudá-los na tarefa de tal forma, que ele não pôde declinar o “chamado” deles. Assim começou uma vida de labor – de autonegação, mas imensamente recompensadora – no pastorado público entre as ovelhas de Cristo. Após dois anos de “exílio”, quando Calvino foi solicitado a retornar à Genebra, ele escreveu ao seu colega Farel: “Mas quando me lembro que não pertenço a mim mesmo, eu ofereço meu coração, apresentado como um sacrifício ao Senhor. Mantenho minha alma presa e acorrentada em obediência a Deus…”. Ao colega Viret, sobre o mesmo chamado: “Não há lugar debaixo do céu do qual possa ter maior medo”. A decisão não foi agradável, mas a vontade de Deus era clara. Ele voltou para Genebra: “Seguirei onde quer que Deus me leve, pois ele sabe melhor porque lançou essa necessidade sobre mim”. Algum jovem hoje tentam correr do pastorado, ignorar os pensamentos que Deus planta, e sentem-se atemorizado ante a possibilidade da obra do ministério? João Calvino fez isso. Lembre-se, contudo, dessas duas verdades: Você não pode correr do Senhor para sempre; e ele te fará disposto e alegre (ver Sl. 110) no dia que fizer você parar.
Capaz, com os dons do Espírito
O homem que Deus sobrepujou para ser o teólogo e organizador da Reforma, para continuar o que Lutero começou, era um jovem brilhante e capaz. Os dons naturais que o Senhor lhe deu foram desenvolvidos mediante esforço disciplinado durante toda a sua juventude, de forma que sua mente amadureceu para ser penetrante e sua capacidade de aprendizado e memorização tornou-se impressionante.
Ele aprendeu os idiomas. Levantando cedo todos os dias para estudar, ao seu francês nativo ele adicionou latim, grego e hebraico, e aprendeu-os de tal forma que era fluente neles. Sua gramática era impecável. Lógica e direito estavam em seu repertório. Filosofia e história tornaram-se amigos familiares. Então, porque Deus lhe deu uma rara memória e mente, não somente poderia lembrar a maioria do que lia, mas também captar a grande figura da revelação. de Deus na Escritura e na história da igreja no mundo. Ele tinha dons naturais, sem dúvida; mas dons que foram desenvolvidos mediante árduo trabalho – o tipo de trabalho que deveria ser requerido nas boas escolas cristãs de hoje.
A igreja precisa de eruditos. Sim, o Senhor usa homens com poucos dons. A maioria dos pastores tem recebido somente uma porção modesta do seu Criador. E, provavelmente, o Senhor não nos dará muitos Calvinos novamente. Mas a igreja de Deus precisa de homens capazes que se aproximem do tipo de obra na qual Calvino se engajou. Que tipo de influência ele teria tido, caso não conhecesse história, não fosse familiar com os pais e concílios da igreja? Quem ouviria um Calvino que usasse uma gramática medíocre? Que bispos e outros inimigos da fé teriam sido silenciados num debate por um homem cuja mente era fraca e cuja lógica era obscura? A igreja precisa de eruditos! O povo de Deus deve orar por eles. Talvez devam pressionar, como Farel e Viret fizeram, os jovens piedosos e dotados a considerarem o ministério.
Jovem, mesmo que ninguém lhe pressione, Deus te chamou para usar os seus dons pela Sua causa. Você está buscando o reino em primeiro lugar? Talvez no ministério do evangelho?
Apto para Ensinar
O dom excepcional que Jesus Cristo deu a Calvino foi uma aptidão para ensinar o povo. Lendo seus escritos, imediatamente sentimos sua habilidade única de tornar claro o que é difícil. A essa aptidão Cristo adicionou um desejo sincero. O Senhor deu a Calvino um coração para ensinar o povo. Um teólogo de primeira classe, Calvino estava interessado que o povo comum aprendesse a verdade e visse a luz. Assim, sua primeira obra principal, sua (relativamente breve) edição das Institutas da Religião Cristã de 1536 foi uma tentativa de alcançar o membro comum da igreja.
O coração de Calvino ansiava em livrar o povo do cativeiro de sua ignorância, livrá-los dos erros de Roma, que atemorizavam a alma. Para isso, sua instrução era antitética, expondo ao modo de Lutero a tolice do sacramentalismo e os erros mortais da justificação pelas obras. Quando ensinava, o povo ouvia a partir da Escritura a verdade da lei de Deus, a liberdade do crente, a vida e adoração cristã, e outros assuntos como profecia, escatologia e os magistrados. Eles aprendiam o que significava ser um crente alegre e obediente no amplo mundo de Deus.
Se a igreja de hoje há de prosperar, ajudar ao povo de Deus a viver nesses últimos e perversos dias, ela deve ter pastores que sejam mestres, que façam a pergunta, como um pastor que conheço sempre faz para si: “Como poso tornar isso claro para o povo de Deus?” Ela deve treinar homens que anseiam, como o coração de Calvino (o próprio coração de Cristo nele!), por um povo que conheça a verdade.
Humildade de Modéstia
Dons sem sabedoria são inúteis. Habilidade num homem orgulhoso é perigosa. A igreja tem descoberto com muita frequência, para grande tristeza sua, que se o Senhor não misturar sabedoria e humildade, modéstia e abnegação, um homem com poucos dons é bem mais preferível que um homem que excede em habilidade, mas é arrogante.
O homem que Deus deu à igreja de 1509 a 1564 foi abençoado com um desejo sincero e abnegado de servir a Jesus Cristo. Sem pretensão, desejando nada senão a honra do seu mestre, João Calvino serviu humildemente ao seu Salvador.
Parte da humildade era uma disposição em confessar suas próprias faltas. Embora Calvino lutasse com o reconhecimento da fraqueza como qualquer outro, o Senhor deu-lhe esse dom também. Mais de uma vez ele pediu desculpas ao concílio da cidade (igreja e governo da cidade estavam bem ligados naqueles dias) por seu temperamento quente e o que ele considerava ira injusta. Também, quando ele e Farel saíram de Genebra, expulsos de seus pastorados porque pastores e o concílio da cidade não podiam entrar em acordo, Calvino queria discutir a possibilidade deles não terem sido sábios em exercer as pressões para mudança. É duvidoso que a expulsão aconteceu por falta de julgamento; mas o desejo de se examinar e estar aberto a exame é louvável.
O Reformador não tinha interesse em dinheiro e posses, outra qualidade necessária em pastores. Sua humildade se mostrou numa completa falta de desejo por coisas materiais. Contente com as necessidades básicas, Calvino rejeitou aumentos, devolveu salários, recusou presentes, e frequentemente usava parte do seu baixo salário para os refugiados franceses em Genebra. Uma vez, quando outros ministros pediram que Calvino conseguisse um aumento para eles, ele sugeriu ao concílio da cidade que abaixassem o seu salário, e dessem a diferença aos outros pastores mais pobres.
A reputação do Reformador como completamente desinteressado em dinheiro alcançou o Papa. Quando Calvino morreu, o Papa Pio IV disse: “A força desse herege consistia nisso: que o dinheiro nunca teve o mínimo atrativo para ele”. O Cardeal Sadoleto, um dos principais antagonistas de Calvino, visitou Genebra em anonimato para ver o famoso protestante. Quando bateu à porta do modesto apartamento de Calvino, ficou espantado que o próprio Calvino atendeu, e não um dos seus servos. O homem mais famoso do Protestantismo vivia numa pequena casa, atendendo sua porta.
Que todo aspirante ao ministério ore por tal espírito! E que Deus possa dar à igreja tais pastores!
Constante sob Pressões
Provavelmente a graça mais admirável dada a Calvino foi a graça de perseverar nas mais severas provas. Que exemplo de um homem de Deus que se sacrificou pela igreja de Cristo! Não sendo um tolo que buscava a morte de mártir, Calvino escapou de ameaças mais de uma vez, esperando seu tempo até que pudesse retornar e ser útil para o reino de Deus. Todavia, o Reformador estava disposto a suportar todas as coisas pela causa de Cristo.
Ele foi literalmente banido de seu próprio púlpito, ameaçado com espadas nas ruas, e expulso de Genebra. Armas foram disparadas diante da janela do seu quarto de dormir. Calvino enfrentou oposição do próprio concílio que o convocou, teve seus amigos punidos por proteger-lhe. Seu querido amigo e companheiro, o pastor cego Claudet, foi envenenado por não renunciar a verdade. Rumores malignos foram abundantemente espalhados sobre ele. Por causa do ministério, ele arriscou sua própria vida visitando os doentes; ajudou a muitos com seus recursos próprios. Apenas uma de suas doenças físicas teria mandado a maioria dos pastores para uma maca; Calvino suportou, sem reclamar, uma dúzia. Seu próprio testemunho diz que ele passou vinte anos sem descanso de enxaquecas. Sofreu de artrite, gota, malária, e finalmente cinco anos de tuberculose. Uma história narra um médico recomendando a Calvino correr velozmente de cavalo para desalojar as pedras dos seus rins – mas suas hemorroidas eram tão severas que ele não aguentava cavalgar.
Todavia, ele continuou a trabalhar, infatigavelmente, pela causa dAquele que o livrou de tão grande morte, e ainda o livraria. Quando amigos imploravam para que descansasse e se recuperasse, ele respondia: “O que!? Você quer que o Senhor me encontre ocioso quando Ele voltar?”.
Nada disso perturbada o homem de Deus, cujo amor por Cristo e visão de sua recompensava o estimulava ao labor incessante pela causa de Deus: “Que me tirou do abismo… para a luz do evangelho, que estendeu tão grandemente Sua misericórdia para comigo, que usa a mim e ao meu trabalho para anunciar a verdade do Seu evangelho. Ele se mostrará o Pai de tão miserável pecador”!
Após seu colega Calvino, de cinquenta e cinco anos, morrer, Farel, agora em seus setenta, disse ao grupo de amigos reunidos no leito de morte: “Ó, quão alegremente ele correu uma nobre carreira. Corramos como ele, de acordo com a medida de graça a nós concedida”.
Senhor da tua amada igreja, faze-nos e prepara-nos para sermos servos teus, como Calvino o foi! Levanta homens com semelhante coração, oferecido pronta e sinceramente a ti.


Autor: Prof. Barry Gritters - Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto