segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Hudson Taylor e a China

     
          James Hudson Taylor (1832 –1905)  foi missionário cristão por quase 52 anos, fundador da Missão ao Interior da China (CIM - China Inland Mission, hoje OMF International – Overseas Missionary Fellowship International).
                Nasceu em Barsley, Inglaterra, filho de pais metodistas. Antes de seu nascimento, seus pais o consagraram a Cristo, por ser o esperado primogênito; o pai de Hudson tinha forte impressão da ordem vétero-testamentária, quanto à consagração dos primogênitos. Quando criança, sempre tinha o pai e a mãe a orar consigo, além dos outros quatro irmãos. No entanto, na adolescência (tinha que ser) distanciou-se dos valores do evangelho. Ele mesmo chegou a confessar-se um cético. Reconciliou-se na fé cristã aos 17 anos (1849), vindo a professar sua fé. As orações paternas, intensas da parte de sua mãe, tiveram ‘eco’ no céu. A semente plantada pelo ministério dos pais reviveu fortemente! Assim ele relata:
"Lembro-me bem da ocasião, quando, com gozo no coração, derramei a alma perante Deus,
repentinamente, confessando-me grato e cheio de amor porque Ele tinha feito tudo - salvando-me quando eu não tinha mais esperança, nem queria a salvação. Supliquei-lhe que me concedesse uma obra para fazer, como expressão do meu amor e gratidão, algo que envolvesse abnegação, fosse o que fosse; algo para agradar a quem fizera tanto para mim. Lembro-me de como, sem reserva, consagrei tudo, colocando a minha própria pessoa, a minha vida, os amigos, tudo sobre o altar. Com a certeza de que a oferta fora aceita, a presença de Deus se tornou verdadeiramente real e preciosa. Pros­trei-me em terra perante Ele, humilhado e cheio de indizível gozo. Para que serviço fora aceito eu não sabia. Mas fui possuído de uma certeza tão profunda de não pertencer mais a mim mesmo, que esse entendimento, depois dominou toda a minha vida".
                No mesmo ano de 1849 consagrou-se ao trabalho missionário, já tendo a China em vista. Uma leitura sobre aquele país asiático o convenceu, levando-o ao estudo do mandarim. Preparou-se também submetendo-se ao curso de medicina, que não completou. À sua própria noiva escreveu as seguintes palavras:
"Imagina, centenas de milhões de almas sem Deus, sem esperança, na China! Parece incrível; milhões de pessoas morrem dentro de um ano sem qualquer conforto do Evangelho!... Quase ninguém liga importância à China, onde habita cerca da quarta parte da raça humana... Ora por mim, querida Amélia, pedindo ao Senhor que me dê mais da mente de Cristo... Eu oro no armazém, na estrebaria, em qualquer canto onde posso estar sozinho com Deus. E ele me concede tempos gloriosos... Não é justo esperar que você... (a noiva de Hudson) vá comigo para morrer no estrangeiro. Sinto profundamente deixá-la, mas meu Pai sabe qual é a melhor coisa e não me negará coisa alguma que seja boa..."
                Em Setembro de 1853, embarcou para Shangai, onde chegou em 1º de Março de 1854. seus relatos da viagem dão conta de um evidente e grande contraste com as viagens internacionais contemporâneas, sejam pelo mar ou, principalmente, pelo ar. Quase se assemelham ao relato de Atos 27... Em vez dos esperados quarenta dias de viagem, quatro vezes mais. Aos vinte e um anos de idade, lá estava Hudson Taylor, no território de sua missão. Em três meses, distribuiu 1800 Novos Testamentos e evangelhos, além de mais de dois mil livros. Só em 1855, oito viagens ao interior da China. Para melhor identificar-se com o povo, resolveu raspar a cabeça como chineses, deixando a trança posterior, e vestir-se como chineses.
                Ao casar-se com uma missionária que estava no país em 1858 (Mary Dyer), fez do seu próprio lar a primeira  sede da Missão do Interior da China. Cinco filhos lhes nasceram. Por causa da deterioração da saúde, voltou à Inglaterra, onde os médicos lhe disseram que, se quisesse viver, não voltasse à China. No entanto, não foi o risco da missão, e sim o veto médico à missão, que lhe pareceu verdadeira ‘sentença de morte’. Lembrou-se de que, a cada mês, eram um milhão de chineses a morrer; e, morrer sem Cristo. Mesmo na Inglaterra, só trabalhava pela missão; tanto, que somente depois de vinte dias pôde abraçar seus familiares. Ao falar em auditórios, lembrava sempre Provérbios 24.11.

                Não mais suportando o grande incômodo pelas almas a perecer naquele país-continente, embarcou novamente, em 1865, com toda a sua família e mais vinte e quatro novos obreiros. Seu alvo era  alcançar as onze províncias chinesas ainda não alcançadas por nenhum cristão. Uma nova viagem  extremamente difícil e perigosa, de quatro meses. O primeiro culto, em 1867, durou quatro horas, incluindo oração e jejum. Poucos dias depois, o Senhor levava à Sua presença celestial a filha de oito anos do missionário. No ano seguinte, a cólera ceifou também sua esposa e outro filho. O relato de quem assistiu o diálogo entre Hudson Taylor e sua moribunda esposa é tangente.  Para acentuar as adversidades, um acidente lhe feriu a coluna, e quase permaneceu paralítico. Foi um tempo de intensas intercessões pela China, e pelos missionários naquele país. Além das orações, era a Palavra de Deus o instrumento da companhia divina diária, tal como expressa na última oração de sua primeira esposa. Um dia, certa pessoa lhe questionou o assunto da próxima prédica; ao responder que ainda não sabia, porque ainda não tinha tido tempo para esse mister, o inquiridor lhe criticou como se nada mais tivesse que fazer, senão descansar.
- Irmão, não conheço o que seja descansar. - foi a resposta branda de Hudson Taylor; quando não estava orando, estava meditando na Palavra;  quando não fazia uma das duas coisas, estava em trabalhos pela missão.
                Entre 1888 e 1889, Taylor visitou o Canadá, os Estados Unidos e a Suécia. Como resultado, a Missão ao Interior da China teve grande impulso. Os novos missionários eram estimulados pelo exemplo daquele homem que amou os perdidos, amou a China. A colheita aumentava o número de crentes. Mas, a revolução dos Boxers, no ano de 1900, dizimou os crentes. Não apenas crentes – também cinquenta e oito missionários da missão.
                Hudson Taylor, com a sua esposa, estavam novamente na Inglaterra, quando começaram a chegar telegrama após telegrama avisando-os dos horripilantes acontecimentos na China; aquele coração que tanto amava a cada missionário, quase cessou de pulsar. Acerca desse acontecimento assim se manifestou: "Não sei ler, não sei pensar, nem mesmo sei orar, mas sei confiar."
                Estando na Inglaterra, eis o que registrou pela carta que recebeu de duas missionárias, escrita um dia antes de sua morte pelos revoltosos:
"Oh! Que gozo de sair de tal motim de pessoas enfurecidas para estar na Sua presença, para ver o Seu sorriso! Elas agora não estão arrependidas. Têm a imperecível coroa! Andam com Cristo em vestes brancas, porque são dignas".
                Após o falecimento de sua segunda esposa, Hudson Taylor decidiu que lhe importava voltar à China. Em 17 de abril de 1905 embarcou. Seu filho, médico, e sua nora, acompanharam. Em sua última viagem, visitou o cemitério onde estão gravados os nomes de quatro filhos e o da primeira esposa. E foi assim, em meio ao derradeiro trajeto da viagem missionária, que Hudson Taylor se deparou com a última milha da jornada. Era 3 de junho de 1905, na cidade chinesa de Chang-sha. Na cidade de Chin-Kiang, à beira do grande rio, foi sepultado  o corpo do missionário, que deu a sua vida – que durou até os setenta e três - pela China. Crianças chinesas cantaram em seu sepultamento, numa cerimônia em que, por força de expressão poética, deve ter paralisado as hostes celestiais, para assistir. Cinquenta e dois anos  haviam se passado desde o atendimento à ‘convocação’. A CIM (OMF) deixou um legado: 800 missionários enviados à China, quase três centenas de estações missionárias presentes em todas as províncias, 125 escolas e a conversão milhares de pessoas. Tombou o pioneiro, antes do levante comunista que sujeitou o país.
                Dele, disse Ruth Tucker:
“Nenhum outro missionário, em dezenove séculos, desde os dias do Apóstolo Paulo, teve visão mais ampla, ou desenvolveu plano de evangelização mais sistematizado em área geográfica estrangeira tão extensa, quanto Hudson Taylor”

[From Jerusalem to Irian Jaya A Biographical History of Christian Missions. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1983]. – Colaboração do Rev. Ulisses Horta Simões.